.............. andamos de JEEP !
Lembro bem de que houve muito bate-boca, com os tradicionais estrategistas de plantão anunciando a chegada da Terceira Guerra Mundial e coisas do tipo, e entre uma e outra coisa que a mídia noticiou houve um grande enfoque à tecnologia ultrapassada que o Mig utilizava, principalmente nos sistemas de navegação e comunicação, que ainda utilizavam válvulas, enquanto qualquer avião militar do lado ocidental há tempos fazia uso de semicondutores.
Muito provavelmente esta informação de interesse técnico "vazou" para a mídia por obra e graça de algum órgão de informação. Ridicularizar o inimigo faz parte do jogo e surte lá seus efeitos, pelo menos junto ao povão. Só que entre os meios militares este assunto deve é ter causado uma certa apreensão depois que alguém matou a charada, que só foi divulgada muitos anos depois do ocorrido e só em meios especializados:
Os americanos sempre trabalharam com a hipótese de que após o uso de armas atômicas, caso alguém sobrasse vivo na face da terra, a possibilidade de um conflito com armas convencionais seria muito restrito, à exemplo do que aconteceu após as duas bombas jogadas no Japão. Já os russos, sempre trabalharam com a idéia de que o uso de armas atômicas seria limitado e seguido de guerra com armas convencionais o que, diga-se de passagem, seria um cenário muito mais realista, e para entender o que isso tudo tem a ver com válvulas e circuitos integrados é preciso entender um pouco dos efeitos de uma bomba atômica.
A destruição física proporcionada por uma bomba atômica pode ser analisada como a finalização de um processo, (simplificadamente) ocasionada pela onda de choque (grosseiramente falando, expansão violenta do ar) cujo poder de destruição pode ficar restrito a algumas centenas de metros ou ultrapassar vários quilometros, dependendo do potencial da bomba. Só que bem antes da finalização deste processo, a fissão atômica também gera distúrbios eletromagnéticos de altíssima intensidade, e mesmo bombas com potencial destrutivo restrito a algumas centenas de metros gera energia eletromagnética que pode ser mensurada a milhares de quilometros, e a velocidade da luz.
Daí podemos criar três cenários:
- Dentro da área de destruição total; circuito integrado, válvula, piloto, avião, americano, russo, tudo vira pó de substrato de pensamento e... plim-plim, a Globo sai do ar.
- Próximo da área de destruição total mas ainda sob ação da onda de choque; por mais protegido que esteja o circuito integrado frita, avião americano fica sem comunicação, sem orientação, talvez até sem controle e se tiver sorte cai instantes depois sob ação da onda de choque. Enquanto isso, a válvula tem um surto, o avião russo balança mas não cai e se tiver sorte consegue até escapar da onda de choque e... plim-plim, a Globo noticia que um radioamador captou comunicação da aviação russa, informando que houveram estragos mas o potencial ofensivo não foi totalmente destruído (na pior das hipóteses, russos com informação e logística preservadas, EUA nem tanto ou nada).
-Dezenas (ou até centenas) de quilometros da área de destruição total mas ainda dentro da área de atuação do distúrbio eletromagnético; por mais protegido que esteja o circuito integrado frita, avião americano fica sem comunicação, sem orientação, talvez até sem controle e se tiver sorte o piloto consegue puxar a alavanca de ejeção do assento e dizer adeus ao avião. Enquanto isso, a válvula tem um surto, o avião russo balança mas não cai e se o piloto tiver tomado muita vodca... plim-plim, a Globonost, através do camarada-repórter Wilianovisk Bonernovisk, informa que o Niva foi eleito o carro do ano e que a perereca da Globeleza será substituída pela perestróika do Gorbatchov.
Sem grandes exageros, estes três cenários poderiam muito bem ter acontecido, e caso ocorresse boa parte do crédito poderia ser das válvulas termoiônicas, tecnologia antiga, como outras, mas não necessariamente ultrapassada, pelo menos para quem conhece seus atributos em detalhes e saiba emprega-los com propriedade, no lugar certo e da forma certa.
O mesmo acontece com qualquer outra coisa do nosso dia-a-dia que envolva algum tipo de tecnologia, e para ficar no que interessa - automóveis - não está errado dizer que injeção de combustível é muito melhor que carburador, mas dependendo da situação um velho e antiquado carburador pode ser muito mais interessante, principalmente quando a eletrônica pifa e estamos no cafundó do mundo. E se estivermos no cafundó do mundo sem manjar lhufas de mecânica ou sem uma mísera chave de fenda, vamos ficar olhando para o carburador com cara de paspalho e com inveja do primeiro caboclo que passar montado na ultrapassada tecnologia da carroça (cá entre nós, muita gente já deve ter sentido isso na pele, com o carro pifado em qualquer grande avenida de qualquer grande centro).
Toda tecnologia tem vantagens e desvantagens que variam em função da aplicação, da forma de uso, da capacitação de quem usa, de quem faz manutenção, da geografia, do clima e até do bolso de cada um. Sem avaliar todos os detalhes, fica complicado dizer que um sistema de amortecimento por atrito é tecnologia ultrapassada. O que este sistema tem de ruim? Desgaste e ajustes temporários? Quem pratica Fora de Estrada deveria ter POR DEFINIÇÃO que todo veículo tem que passar por manutenção PREVENTIVA periódica, e quem faz isso está dando xongas para o tempo despendido numa eventual manutenção do amortecedor por atrito.
O jipe terá um uso intensivo por terrenos alagados? Ah... agora a coisa muda de figura, neste tipo de aplicação a eficiência do amortecedor por atrito vai pro saco em pouco tempo. Diga adeus a este tipo de amortecedor e instale (ou construa) um Spring Shock e proteja até as molas contra ferrugem.
Por qualquer motivo não quer um Spring Shock? Com alguma merreca e pouca mão de obra é possível fazer um suporte para amortecedores duplos ou até triplos.
A mão de obra é escassa? Substitua o amortecedor original do jipe por outro de caminhonete, caminhão, trator, o escambau.
Se fizer uma escolha BEM acertada, levando em consideração tudo o que REALMENTE interessa para o uso PRETENDIDO, pinte o amortecedor de amarelo e saia por aí dizendo que é amortecedor da marca Sítio, rival nacional do Rancho, que custou o justo e que, se bem acertado, pode até superar o rival importado (Marca pode ser sinônimo de tecnologia mas uma tecnologia sem marca não é necessariamente inferior).
Não existe tecnologia ultrapassada, o que existe é tecnologia mal empregada.
Em tempo: nos dias de hoje, se por acaso explodir alguma bombinha atômica por aí, a única guerra que os sobreviventes verão será na base do trabuco e do porrete, ninguém mais usa válvulas, inclusive os russos!



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