Conforme mencionei, tive problemas nos Andes. Segue um dos meus relatos daquele dia.
Kalgeânio, irmão de Janioak, Kartejanio, Moabio e de outros irmãos que tem nomes parecidos com nomes de elementos químicos de uma tabela periódica, saiu da cidade de Arapiraca em Alagoas e veio vender redes no Paraná.
Chegando a uma empresa transportadora vendeu todas as redes para os motoristas de caminhão. O dono da empresa se interessou por ele e transformou o mesmo em motorista de caminhão internacional. Entregou um Volvo de 35 toneladas para o mesmo fazer viagens para o Chile sem informar o que ele teria que passar daí para frente.
Na primeira viagem pegou uma nevasca na travessia para Santiago e só não morreu porque achou uma panela e algumas velas que deu para esquentar a cabine à noite na cordilheira. Na segunda viagem, onde nós nos encontramos na cidade de Calama
Na quinta feira, enquanto aguardavamos o embarque na NIssan no caminhão paraguaio (consegui embarcar), Gloriete assumiu a cozinha do caminhão volvo do Kalgeânio e preparou uma sopa quente com os ingredientes que trouxemos, com jeito feminino, para o nosso grupo, juntamente com ovos fritos e incrível, um café brasileiro (pilão).
Mas vamos às notícias:
Como já tínhamos falado estava muito difícil sobreviver em Calama bem como não conseguíamos sair de lá, buscamos um PLANO P ( os anteriores de A a O já haviam esgotado). Gloriete começou a batalhar uma vaga de professora de português em uma escola de idiomas e eu coloquei meu currículo para ser motorista de caminhão gigante (140 toneladas) que faz extração de minério na mina de cobre de Chuchicamata pois precisávamos sobreviver.
Por um descuido do mistério que envolve a cidade, conseguimos um contato com o transportador de Iquique e o caminhão que iria sair na segunda, chegou quarta feira às 11 da noite e marcamos nossa saída para a quinta às 08:00 da manhã.
Como já mencionado, tomamos o café da manhã preparado pela Gloriete, embarcamos a Nissan no caminhão ( operação de 40 minutos) e partimos para San Pedro de Atacama.
Ao ver a caminhonete embarcada e subir na boleia do caminhão onde cabem tranquilamente 5 pessoas foi um alívio.
Por três dias consecutivos tinhamos ficado na estação de serviço em um cruzamento no meio do deserto olhando para a distância buscando os caminhões ao longe.
Como era um cruzamento de subida, podíamos avistar os pontos pretos que a mais de 10 km iam se transformando em veículos assim que se aproximavam do cruzamento.
De manhã a temperatura se situava em torno de 3 graus e a medida que o sol saia ia aumentando.
Embarcados na boleia , a viagem até San Pedro de Atacama durou 3 horas pois na subida o caminhão sofre muito com o peso. Na subida sobe devagar e na descida desce devagar por causa dos freios.
Chegamos em San Pedro, fizemos a aduana, em 30 minutos no máximo e já "fora" do Chile, o caminhão estacionou a uns 500 metros a frente do posto. Coisa estranha ... Estávamos em San Pedro, mas legalmente estávamos fora do pais.
Gloriete então preparou nossa dormida dentro da caminhonete (em cima do caminhão), pois a madrugada prometia ser fria e às 20:30 horas já estávamos alojados e quentinhos.
Todos os caminhões que vão subir a cordilheira param nesse ponto do deserto, pois o motor sofre muito (esquenta) na subida e partem de madrugada bem cedo. Contei uns 12 caminhões parados. Fica todo mundo dentro dos caminhões. Ninguém conversa com ninguém porque o frio é muito intenso.
Como sabem não sinto muito frio, mas além das 3 camisas entrei num saco de dormir e nos cobrimos com um cobertor. Gloriete, grande guerreira, enfrentava tudo sem reclamar e estava me animando falando que no outro dia as coisas estariam melhores.
A madrugada não foi das mais frias. O termômetro externo só chegou a -4 graus centigrados. Internamente na Nissan estava 3 positivos. Perfeitamente suportável para os padrões. Impressionante como diante da adversidade o corpo humano se entrega de vez ou se adapta.
Às 4 da manhã iniciamos nossa subida da cordilheira. Fomos os terceiros a sair e Carlos, o motorista do caminhão passou os outros dois durante a subida.
Viagem tranquila ... Vi um céu como nunca vi na minha vida. No alto da cordilheira a mais de 4500 metros, numa escuridão total, as estrelas ficam mais próximas. Vi 2 estrelas cadentes riscando o céu. Fiz 2 pedidos ... Nem no observatório astronômico foi tão lindo. A temperatura começou a cair na subida e chegamos aos 14,5 graus negativos externamente e 1 grau positivo internamente.
Os primeiros raios do sol nos picos da cordilheira são indescritíveis. Foi a imagem mais linda da viagem. Gostaria que meus filhos tivessem presenciado o espetáculo. O sol começa a aparecer por entre as montanhas mais altas e a temperatura começa a se elevar aos pouquinhos.
A uns 3 km antes de Paso Jama, o caminhão parou e desceu a caminhonete. Foi a parte mais dolorida, pois a temperatura externa era de menos 12 graus. Baixar um carro do caminhão com um vento cortante congelando as mãos, só para os muito fortes. Gloriete dentro da caminhonete quase morria de frio quando eu abria as portas para fazer alguma operação.
O caminhão me soltou na descida e fui descendo em ponto morto por 3 km cordilheira abaixo, com deficiência nos freios por não tinha hidrovácuo nem direção hidraúlica (motor inoperante). Quem é motorista sabe de que eu estou falando e cheguei na Aduana de Paso Jama no embalo da velocidade, estacionando como se nada estivesse acontecendo.
Fizemos os tramites, e uns 10 minutos depois o caminhão chegou como que nem me conhecia.
Ao sair, falei na alfândega que havia tido problema e precisava de ajuda e falei que minha esposa estava com problemas por causa de altitude e como eles não querem problemas, permitiram que o caminhão me rebocasse com a cinta até o próximo ponto.
Fui então rebocado ( estrada mais ou menos plana) até Susques, distante 120 km, sem maiores problemas, apenas controlando e mantendo a cinta mais ou menos esticada durante as descidas.
O caminhão nos deixou na estrada, em plena cordilheira, uns 3 km após a aduana de Susques. Nossa companhia eram as lhamas que pastavam próximas sem se incomodar com nossa presença.
Dai até Jujuy foi um passeio. A única coisa que dá medo é a subida da Cuesta de Lipan e a posterior descida, tudo isso atrás e em cima de um caminhão de 26 metros de comprimento e a 3,5 metros de altura.
Se eu contar o que senti vocês vão pensar que estou exagerando, então prefiro que venham comprovar como é descer 2300 metros em 10 km de ruta. Supera qualquer emoção de montanha russa ou daqueles brinquedos do parque onde só os malucos vão.
Muito bem Caracoles (Mendoza )perto de Cuesta de Lipan é estradinha de menino.
Chegamos em Jujuy às 18:30 horas. Foram 15 horas e pouco de sofrimento ou emoções dependendo do foco pessoal de cada um. Nós vamos fazer isso tudo novamente ano que vem.
A única coisa que sentimos realmente é a temperatura baixa e a falta de oxigênio a 4804 metros, mas nada que uma mastigação "daquilo" que Evo Morales defende não resolva. Volto a afirmar, sem aquilo não pode existir vida nas alturas.
Em Jujuy, ao chegar, por sorte o caminhão nos baixou em um posto de serviço que ficava a 200 metros do concessionário Nissan o que facilitou de sobremaneira. Isso não estava programado. Foi sorte ou a mão de Deus.
O carro está na concessionária. Hoje sábado nos encontraremos com Walter. Depois conto o que aconteceu. Não sei o tamanho do problema, mas não adianta me antecipar e perder o final de semana.
Um abraço a todos e principalmente aos meus filhos que estou com muita saudade.