http://www.midiasemmascara.com.br/artigo.php?sid=2429
Recentemente os bancos Bradesco e Itaú divulgaram seus demonstrativos contábeis referentes ao semestre encerrado em junho. Ambos apresentaram lucros que andam por volta de um bilhão e meio de reais. Instantaneamente os jornais correram a publicar notícias que, como sempre, traziam aquela mensagem subliminar de ganhos espúrios, de injustiça social, de capitalismo selvagem e por aí vai. Os leitores, sempre bem doutrinados, correram a enviar mensagens de desagrado, indignação e revolta.
Lendo estas notícias e respectivas cartas dos leitores, lembrei-me imediatamente do nosso maior e melhor exemplo da doutrina patrimonialista e estatizante que toma conta do país há mais de meio século: a PETROBRÁS, e de um trabalho realizado no início deste ano que se destinava a fazer uma análise econômico financeira sobre os Demonstrativos contábeis apresentados por ela para o exercício de 2003. O estudo abaixo teve como origem uma discussão acalorada com um amigo ex-funcionário da empresa, que se mostrava contra os leilões das áreas de exploração pela ANP.
O trabalho consistiu, basicamente, em coletar dados contábeis consolidados do conglomerado Petrobrás, estabelecer alguns índices à partir desses dados e compará-los com uma outra empresa do mesmo setor. Para efeito de comparação a segunda empresa deveria ter um perfil bastante semelhante, devendo englobar a maioria das atividades desempenhadas pelo conglomerado BR: pesquisa, extração, refino e distribuição. Pela facilidade de pesquisa e por sua óbvia representatividade no setor, escolhi trabalhar com a americana Exxon Mobile, porém se tivesse escolhido outras, como a Texaco, o resultado não seria muito deferente.
É importante esclarecer que todos os números utilizados neste trabalho foram retirados dos demonstrativos contábeis das duas empresas, disponíveis nos sites oficiais das mesmas em: http://petrobrasinfoinvest.com.br/modulos http://www.exxonmobil.com/corporate/...ancial2003.pdf .
Os dados utilizados foram os seguintes, deles se extraindo todos os índices e taxas analisados:
Informações Contábeis Petrobrás (**) Exxonmobil
Lucro Liquido do Período U$ 6,16 bilhões U$ 21,50 bilhões
Patrimônio Líquido (fim exerc.)* U$ 10,93 bilhões U$ 89,90 bilhões
Receita Liquida do Período U$ 33,15 bilhões U$ 246,70 bilhões
Ativos Totais (fim do exercício) U$ 47,17 bilhões U$ 174,28 bilhões
Numero total de empregados 49.100 homens 88.300 homens
(*) Valor Exclui o lucro do ano corrente
(**) Valores convertidos em dolar pela própria empresa
O primeiro ponto que me chamou a atenção nos demonstrativos da Petrobrás foi um resultado líquido (lucro) espetacular no exercício, da ordem de 17,8 bilhões de reais (6,2 bilhões de dólares), muito superior ao lucro auferido por todos os dez maiores bancos brasileiros juntos no mesmo período. Como este número por si só não significa muita coisa, levantei a taxa de retorno sobre o Patrimônio Liquido, que vem a ser a relação entre o lucro líquido do período e o Patrimônio Liquido (Capital Próprio + Reservas). Qual não foi a minha surpresa ao constatar um índice de 56,35%. Quase saí correndo para comprar todas as minhas reservas em ações da Petrobrás, pois há muito poucas empresas na face da terra que produzem tal taxa de retorno. Só para se ter uma idéia, o mesmo índice para a Exxon foi de 22,5% (menos da METADE).
O segundo passo foi levantar o valor da margem líquida da empresa durante aquele exercício. Este índice se obtém pela relação entre o lucro líquido e a receita líquida do período analisado. E foi aí que comecei a sentir-me meio assustado e meio roubado, pois o índice encontrado foi, nada mais, nada menos do que 18,58% (22,24 nas contas da Petrobrás?), ou seja: de cada cem reais de vendas líquidas (descontados todos os impostos diretos incidentes), nada menos do que entre 18 e 22 reais eram puro lucro liquido. Só para se ter uma idéia do absurdo que este número representa, a margem líquida da Exxon, que vem a ser a maior empresa petrolífera do mundo, contando com todo o seu poder de barganha junto a clientes e fornecedores, foi de 8,70%, quase 2,5 vezes menor.
Como teria sido possível tal façanha? A primeira hipótese seria a de que se tratava de uma empresa extremamente eficiente, o que se mostrou falso pelos índices posteriormente analisados. Sobrou então a segunda, da qual eu já desconfiava de longa data: os preços praticados pela Petrobrás em 2003 estavam absurdamente inchados, não só em decorrência da queda brutal do dólar em relação ao real no período, como também em função da queda do próprio preço do petróleo naquele ano.
A pergunta que se colocava, então, era: quem ganhou e quem perdeu com isso?
Em primeiro lugar, como de costume, ganhou a União, que faturou alto nos impostos (estimo algo em torno de 15,40 bilhões de dólares), tanto nos diretos (Cofins, Pis, ICMS, CIDE, etc..) quanto nos indiretos (IR e CSSL), além de, como acionista majoritário, ficar com a maior fatia do lucro.
Logo em seguida vieram os empregados da companhia, que além dos salários (será que ainda são 15 por ano?) médios bem acima do mercado, mais os benefícios extras (as famosas conquistas), ainda levaram o equivalente a 5% do lucro líquido auferido (participações estatutárias). Isto é o que se pode chamar textualmente de re-distribuição de renda (do bolso do consumidor diretamente para o do funcionário público). Pelas contas, se cada empregado recebesse o mesmo valor, daria aproximadamente 17.800 reais para cada cabeça.
O terceiro ganhador são os acionistas minoritários, que receberão polpudos dividendos.
Já os perdedores, bem... os perdedores, infelizmente, fomos todos nós consumidores de derivados de petróleo e gás, ricos e pobres, indiscriminadamente, que passamos um ano inteiro pagando pelos nossos combustíveis muito mais do que seria razoável, desejável e necessário, graças ao monopólio que ainda insistem em defender. O mais interessante de tudo é que não me lembro de uma carta sequer aos jornais reclamando dessa situação.
O passo seguinte foi tentar aferir o nível de eficiência da empresa e de seus empregados, tão propalada pela propaganda maciça. O parâmetro escolhido, em princípio, foi a relação entre a receita líquida e os ativos totais de cada uma das empresas. Este índice serve para medir a capacidade de uma empresa em gerar receitas com base em seu patrimônio total. Como este índice não está sujeito à interferência de uma margem de lucro artificial, criada em função da posição monopolista, a disparidade encontrada foi enorme: enquanto a empresa americana obteve uma receita liquida total da ordem de 141% do seu patrimônio, a nossa eficientíssima Petrobrás obteve apenas a metade, ou seja, 70%. Isto demonstra que o lucro da empresa brasileira no ano passado não foi resultado da sua capacidade empresarial, mas simplesmente dos preços absurdos praticados. Por este índice, a Exxon é duas vezes mais eficiente que a Petrobrás.
Não satisfeito com os resultados encontrados, resolvi dar um crédito à nossa estatal e passei a analisar os resultados em termos da eficiência funcional das duas empresas. A primeira comparação foi entre os valores das Receitas Líquidas em relação ao número total de empregados. Chegamos à conclusão que, em média, cada um dos funcionários da Exxon produziu uma receita líquida da ordem de US$ 2.794.300, enquanto na Petrobrás este valor foi de aproximadamente US$ 676.530. Significa dizer que a produtividade média dos empregados da Exxon em função da sua receita é de cerca de 4 vezes a dos eficientíssimos trabalhadores da Petrobrás. Cabe ressaltar que nestes números não estão incluídos os milhares de funcionários terceirizados da empresa brasileira (este dado não está disponível) e portanto a disparidade é certamente ainda maior.
Mesmo sabendo que o próximo índice não seria muito ilustrativo, haja vista que o lucro apresentado pela Petrobrás encontrava-se artificialmente inchado pela margem líquida analisada acima, resolvi estabelecer a relação entre o lucro líquido das empresas e o seu quantitativo de empregados. Qual não foi a minha surpresa ao ver que, apesar daquela margem exorbitante, que resultou num lucro liquido nominal imenso para os padrões brasileiros, os índices encontrados aqui foram ainda amplamente favoráveis à Exxon e seus empregados, ou seja: Petrobrás – lucro de US$ 125.714 por empregado; Exxon – lucro de 243.488 por empregado.
Para finalizar, como este setor é (ou deveria ser) eminentemente de "capital intensivo”, resolvi apurar o índice que mede o valor dos ativos por trabalhador em cada uma das empresas analisadas, chegando aos incríveis números de: Petrobrás – US$ 962.653 em ativos para cada funcionário e Exxon – US$ 1.973.703 para cada um. Que grande cabide de empregos!
Como se vê, exceto pela margem líquida artificialmente conseguida, com base única e exclusivamente num monopólio extemporâneo e fora de propósito, qualquer índice que se cogite a vantagem é sempre larga em favor da empresa americana. E, por favor, não me venham dizer que em outras épocas a Petrobrás bancou preços artificialmente baixos em prejuízo próprio porque o balanço que analisei mostra uma saúde financeira invejável tanto em termos de índice de endividamento quanto de liquidez.
por João Luiz Mauad em 10 de agosto de 2004